Declaração poética do dia 5 de Abril do ano 2008 em Bruxelas para o reconhecimento dos genocídios ameríndios

Declaração escrita e lida à cargo dos nossos amigos americanos de todo o continente, do Grande Norte ao Grande Sul, esses que não podem tomar a palavra por múltiplas razões como nós fazemos hoje. Porque o Tabu que representa para todas e todos, cidadãs e cidadãos das Américas, a questão dita autóctone, das primeiras nações, dos nativos ou dos ameríndios é, ainda, como fogo que queima em pleno inverno, coração frio que não pode ver nem sentir, porque é necessário avançar, é preciso queimar, conquistar todos os territórios sem muitas perguntas, e sim, sem parar, correr longe longe e sempre depressa e cada vez mais distante e mais depressa para o oeste, ao oposto de onde nasce o sol.

Nós, belgas, franceses, ingleses, espanhóis, portugueses, italianos... e por conseguinte Europeus.
Nós, bisnetos, netos, netinhos de Todos aqueles que daqui viram partir ou que tiveram de partir deixando este velho continente para conquistar um Novo Continente portanto tão velho quanto o nosso.

Nós, reconheçemos em nome do asilo, da conquista, da ganância, da colonização, da esperança e às vezes mesmo em nome dos nossos deuses,

Nós,
perpetrámos o Inominável que aqui nestas linhas

Nós,
Declaramos como Inaceitável, como um remorso tardivo: sistematicamente nós, aì, ainda europeus depois americanos, canadianos, mexicanos, brasileiros, colombianos, argentinos e outros americanos do centro e do sul, tiramos à outros homens as suas terras e os seus sonhos, as terras e os sonhos dos seus antepassados, as suas riquezas, a sua memória…

Nós,
Começamos por os considerou como povos sem terra, a seguir " sem alma"(como as nossas esposas antigamente), roubamos, esgotamos territórios e humanos e entramos em Guerra contra nossos irmãos, matando-os, massivamente e a seguir expulsando-os...

Nós,
Forçamo-los à ocupação de magras zonas-territórios onde nós fazemos tudo para os manter ainda hoje. Se deixámo-los partir, é para lhes pedir que se renunciem, que esqueçam quem são, donde vêem e onde levam os seus sonhos, de forma que lhes restam sómente o Invisível : os aculturar, mudar os seus nomes, os baptizar com nossas religiões, para os violar no que têem de mais íntimo, de mais profundo, o mais profundo de nós.

As Reservas são abrigos de Casinos, de zonas francas para melhor os embriagar – embriaguez de ouro que perdeu todo o verdadeiro valor do Espirito!

Esses campos de Morte Lenta nos chamam para denunciar essa série de actos que duram mais de 500 anos,  que chamamos aqui pelo seu nome: um dos Genocídios mais longo, mais duradoiro e massivo da história conhecida da Humanidade, o das populações denominadas Os Indios de América!


Nós,
Pequenas-pequenas crianças, minusculas crianças desses homens e dessas mulheres que ainda sonham com futuros melhores, de mundos novos, de utopias… e que cometeram esses actos….

Nós,
pedimos PERDÃO.
A través de ti, Charles Coocoo,
pedimos PERDÃO
humildemente e insuficientemente.
PERDÃO

Nós, te confiamos, Charles,
mestre de cerimônia, Matotoson Iriniu, para ti e para os teus antepassados, esta Declaração, assinada por todas as pessoas de boa vontade aqui reunidas esta noite, cuja lista é levada abaixo…todas as pessoas unidas à volta da Poesia, da Música, da Arte e da pesquisa do sentido...

Esta Declaração é um acto de Reconhecimento e de Arrependimento. O seu limite é o atraso com que veio. Os seus horizontes são a sua sinceridade e a das pessoas que a apoia.

Esta Declaração também é uma Afirmação: o ser humano pode florescer, continuar a descobrir e a alargar os seus territórios sem roubar, matar, massacrar, arruinar.

Esta Declaração deseja ser enfim uma Promessa: daqui por diante, Juntos, construamos novas formas de coexistência das nossas almas, pensamentos, corações, ações e novas aspirações.

A Palavra é para nós a oportunidade para que, o poder de Transformação dos nossos limites, tornem realizações de Vida e então do Sublime.

Um poeta nosso, francês, dizia que se existisse uma montanha que subisse da Terra ao Céu, essa Montanha seria invisível aos nossos olhos mas que portanto, a Base do Invisível teria que estar algures, e ser Visível necessariamente…

Para ti,
poeta, chamane, humano,

Nós te confiamos esta Declaração.
Ela viajará depois desta noite, se juntará à outras Embaixadas que como esta, simbolicamente, constituímos hoje à noite.

Que desta pequena base visível, o teu povo e todos os povos irmãos de todos os tempos, desde a expansão do homo sapiens, que viveram tais abominações, venham desde lá do invisível alimentar uma forma mais real as Festas, as Danças e as Criações que nós, juntos, somos convocados à partilhar!

Feito em Bruxelas, no dia 5 de Abril do ano 2008
No Espaço Senghor, aquando do Maelström FiEstival #2



Cópia original e assinada por Charles Coocoo-Matotoson Iriniu. Cópias a serem distribuídas nos dias, semanas, mêses e anos vindouros. A declaração pode ser lida e também ser assinada no www.fiestival.org - Siga: nomes, apelidos, nacionalidade e local de residência das pessoas signatárias.